


Os Sapos e as Fotos
Durante muitos anos me dediquei a fotografar sapos. Não somente sapos, mas todos anfíbios que surgissem na minha frente. Mas por quê?
Estes anfíbios remetem nossas lembranças a muitas situações. Senão, vejamos: engolir sapos, pagar sapo, o sapo que virou um príncipe (às vezes o contrário), jogar sal no sapo, costurar a boca do sapo… coitados! Ah, tem as pererecas, seres tão pequenos e frágeis, que são protagonistas de “causos” ao fazer pessoas ou até grupos de pessoas (leia-se mulheres) saírem tresloucadas de quaisquer lugares, especialmente dos banheiros. Curiosamente isso é parte de nossa cultura.
Bom, respondendo a pergunta que ficou no ar, a resposta é: eles merecem. Da mesma forma que uma baleia azul, uma planta, uma bactéria e todos seres vivos merecem também ser fotografados. Incluindo nós mesmos.
É claro que escolhi esses animais como meu tema preferido por outras razões, que enumero a seguir:
- em geral possuem duas fases de vida muito distintas: na água (como girino) e na terra. Surpreendentemente podem desovar fora da água, carregar os ovos e até mesmo os girinos nas costas e daí por diante;
- auxiliam no equilíbrio da natureza, comendo insetos e outros artrópodes, dentre eles os que são transmissores de doenças; algumas espécies até incluem pequenos frutos em seu cardápio. E também servem de alimento a vários outros animais, até mesmo anfíbios;
- por terem a pele muito fina e permeável e dependerem da água para sua reprodução e sobrevivência, o anfíbios são muito sensíveis a mudanças no meio ambiente e, por isso, podem ser considerados ótimos bioindicadores da qualidade ambiental;
- são venenosos (você não sabia disso?????). Todos eles, só que em maior ou menor grau de toxicidade. Alguns podem te matar apenas sendo segurados! Mas o seu veneno também tem utilização para a medicina;
- são extremamente simpáticos.
Curiosamente, o animal mais fotografado do mundo é uma perereca (cuidado com os trocadilhos…). Esses bichos rendem fotos maravilhosas. Basta você saber onde ir, de preferência acompanhado de um biólogo ou outro profissional entendido no assunto.
Fotografar anfíbios segue a mesma regra da fotografia de natureza: o exercício da paciência. Eles não vão deixar que sejam capturados pela sua lente tão facilmente. Mas, se me permitem, quero deixar aqui a minha dica, resumida em simples quatro passos:
- VER: obviamente você deve primeiramente achar o bicho. Mas o que quero dizer aqui é a necessidade de se entender o que está acontecendo em termos fotográficos: como está a iluminação, o fundo, o posicionamento do seu objeto, etc…
- APROXIMAR: é o momento mais crítico. Se este passo não for executado com cuidado, o seu objeto literalmente irá se mandar. Caminhe com muito cuidado, mexa-se lentamente, mas tente chegar o mais próximo que puder. Lembro de novo: seja vagaroso!
- OBSERVAR: antes de apertar o botão, observe o que o bicho está fazendo. Ele poderá assumir atitudes como cantar, caminhar, saltar, comer, ficar quieto ou mesmo te ignorar. E também te dará sinais da sua próxima atitude como, por exemplo, um salto de fuga ou pular na sua câmera. Às vezes acaba pousando na sua testa… isso é uma sensação interessante.
- FOTOGRAFAR: agora é o “momento decisivo”. Toda aquele blá-blá-blá de abertura x velocidade, teorias de composição, onde fotometrar irá permear a sua cabeça e disso dependerá o sucesso (ou fracasso) da sua foto. Como toda arte, 10% é inspiração e 90% transpiração.
É isso aí. Rubens Matsushita Fotógrafo e biólogo